O setor residencial revelou-se um dos mais resilientes do mercado imobiliário nacional durante a pandemia. Paula Sequeira, Consultancy Director da Savills, explica a que é que assistiu a agência, quais os compradores mais interessados e qual o polo de atração de investimento internacional no nosso país.

“Osetor residencial revelou-se um dos mais resilientes do mercado imobiliário nacional nos últimos dois anos, apesar do impacto negativo do COVID-19.” Esta é a visão que um dos principais agentes imobiliários do mundo, com 600 escritórios no continente Americano, Europa, Ásia, Pacífico, África e Médio Oriente, tem em relação a Portugal.

No geral, o mercado imobiliário foi influenciado pela pandemia. Ainda assim, depois de pouco mais de um ano em território nacional, mesmo com os preços das casas para comprar a subir, segundo revelaram dados do INE, este setor viu os seus resultados a crescer com a procura de habitações a disparar no primeiro trimestre deste ano.

Em entrevista ao Notícias ao Minuto, a consultancy director da Savills, Paula Sequeira, afirma que, relativamente aos preços das habitações, “os dados revelam uma desaceleração do crescimento anual dos mesmos, mantendo-se no entanto a tendência de crescimento.”

Relativamente ao número de habitações vendidas em Portugal, Paula Sequeira destaca que, “de acordo com os últimos dados do SIR (Sistema de Informação Residencial – Ci), foram vendidas em Portugal no Q1 2021 cerca de 50.000 unidades, no total, traduzindo um acréscimo de cerca de 21% face a igual período de 2020 e 2019.”

O número médio de meses que medeiam entre a colocação em oferta e a transação fixou-se em 5 meses no Q1 2021, note-se, tendo-se mantido inalterado face a igual período de 2020 e decrescido face a igual período de 2019.

A que tendência assistiu a Savills no último ano?

No caso da Savills, assistimos a uma manutenção da procura nos primeiros dois meses do ano e a um incremento da mesma entre março e abril, motivada nomeadamente pelos compradores internacionais que haviam colocado ‘on hold’ as suas decisões de compra por impossibilidade de viajarem devido às restrições impostas pelo confinamento.

A Associação Lisbonense de Proprietários assume que Portugal continua com casas a “preço de saldo” no plano internacional”. Qual é a sua opinião?

Se olharmos para a média do parque habitacional diria que sim. O mesmo já não se verifica nos segmentos médio-alto, alto e luxo, onde os preços por m2 se situam ao nível dos praticados em algumas das principais cidades da Europa e não só.

Considera que as famílias portuguesas conseguirão fazer frente a este aumento de preços?

A atual disponibilidade de capital de promotores / investidores nacionais e internacionais tem levado a “excesso” de oferta de habitações de luxo e escassez de opções acessíveis nos principais centros urbanos.

Esta tendência já se vem verificando nos últimos anos, com impacto positivo no desenvolvimento das cidades satélite.

A evolução tecnológica é outro ramo que tem feito correr muita tinta nos jornais. Todas as indústrias, não só o mercado imobiliário, com a necessidade de se adaptar têm adotado (necessariamente) ferramentas mais automatizadas, nas palavras de Jorge Próspero dos Anjos. Nesse sentido, leva a que o consumidor queira ser assistido por profissionais abastecidos da mais recente tecnologia.

Estará o setor imobiliário pronto para adotar medidas mais digitais?

A evolução tecnológica é um dado adquirido e o imobiliário terá necessariamente de se adaptar e incorporar as novas tendências. A pandemia provocada pelo COVID-19 trouxe mudanças na maneira como as pessoas vivem e trabalham, alterando o que os compradores / utilizadores consideram importante nos espaços que compram e/ou ocupam. A necessidade de conectividade para agilizar o incremento do teletrabalho é um dos desses aspetos.

A tecnologia revelou-se ainda de grande importância no setor da mediação imobiliária, permitindo contornar algumas das medidas impostas pelo estado de emergência como a impossibilidade de realizar visitas físicas aos imóveis. As visitas virtuais, a digitalização e aposta em conteúdos multimédia foram estratégias adotadas, que a pandemia veio acelerar.

O que se segue para o setor imobiliário?

O imobiliário tornou-se um veículo de investimento recorrente, com as taxas da Euribor em mínimos históricos. Esta tendência global e transversal vai manter-se e Portugal não é exceção.

Vários são os fatores distintivos que podem ser “apontados” a Portugal como polo de atração de investimento internacional em imobiliário – políticos, económicos, sociais, fiscais, geográficos, etc.

No que concerne aos diferentes segmentos do sector imobiliário, destacaria Escritórios como o mais consolidado nas principais cidades (Lisboa e Porto), Logística & Industrial como tendo sido um dos que a pandemia mais impulsionou (Portugal passou de uma taxa de penetração do e-commerce em torno dos 5% em 2008 para uma taxa de cerca de 11% em 2019 / 2020) e os denominados “Segmentos Alternativos” (Student Housing, Co-living, Senior Housing e BTR) assentes em produto residencial com rendimento associado, os quais procuram dar resposta às novas necessidades geracionais.