Por Francisco Mota Ferreira

Se houve alguma coisa boa que o COVID trouxe foi, pelo menos, a diminuição dos turistas imobiliários. Quem fez mercado residencial alguma vez na vida teve seguramente experiências diversas sobre este tipo de freguês que, na cadeia alimentar, estará um pouco acima do cliente palhaço. Lembram-se dele?

Já vos tinha falado aqui do cliente palhaço, que pode definir-se como aquela personagem que não deve ter nada que fazer na vida ou ninguém com quem falar e então recorre aos consultores para preencher o seu vazio. São também aqueles clientes que nos alimentam com a promessa de uma compra iminente, normalmente de seis dígitos, para nos aliciarem com uma comissão simpática.

Pelos motivos que vos referi no parágrafo anterior, os clientes palhaços são mais perigosos, porque, para além de nos trabalharem a imaginação, podem-nos comprometer perante clientes e/ou parceiros.

Pelo contrário, os turistas imobiliários são quase cosy na sua abordagem e são, genuinamente, pessoas simpáticas. Que, noutra circunstância, até adoraríamos levar a tomar um chá, não fosse o facto de andarem a fazer-nos perder tempo.

Sendo um pouco como os animais que hibernam, também o turista imobiliário tem um pico de actividade, variando a sua exposição entre a Primavera e o Outono. No Inverno está muito frio e chuva para sair; no Verão está bom para ir para a praia ou de férias. Mas, mal despontam os primeiros raios de sol, lá os vemos a prepararem-se para um dia de profunda animação.

Aparecem normalmente em casal e, de repente, avisam que vai chegar também mais a pessoa X,Y e Z. Quando damos por ela, estamos a servir de guias imobiliários ao fantástico T4 na Quinta da Marinha, porque um ou dois casais foi dar uma voltinha até ao Guincho e, pelo meio, lá acharam que era uma boa ideia visitar umas casitas para passar o tempo.

Viajando em grupo, esta espécie é, por natureza, curiosa, e alimenta a sua curiosidade com infindáveis perguntas sobre o imóvel que estão a visitar. Porque querem mostrar que o seu interesse é genuíno e, também, para nos tentarem convencer que são clientes e que nada têm a ver com a espécie que representam.

O COVID e os períodos de confinamento a que fomos estando sujeitos vieram reduzir a actividade dos turistas imobiliários quase ao nível da extinção. Mas, sendo tão inevitável como a certeza que após a chuva virá o bom tempo, também com o progressivo fim das restrições, voltaremos certamente a ouvir falar desta espécie.

A terminar, se me é permitido dar um conselho, daria este: não os tratem mal. Às vezes, mas mesmo muito às vezes, algum membro desta espécie converte-se, genuinamente, em cliente comprador. São raros, mas, diz quem sabe, que são fieis a quem mostrou, com legítimo interesse, aquele apartamento que, afinal, acabou por não lhes sair da cabeça. Milagres, às vezes, acontecem.